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Avaliações de desempenho

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.07.13

A cultura de base dominante no país, e refiro-me à grande maioria dos seus habitantes independentemente do seu papel, funções, responsabilidades, é avessa a qualquer avaliação de desempenho. Aqui não me refiro às avaliações de desempenho que vemos praticar na administração pública, por exemplo, aqui refiro-me a uma avaliação objectiva e imparcial.

E no entanto, nunca como hoje precisámos de reavivar esta cultura, a começar nas funções de maior responsabilidade até às restantes, porque mesmo o papel mais simples em termos de escala pode fazer muita diferença no grande plano.

 

Uma avaliação de desempenho é essencialmente a qualidade da tarefa e/ou do produto, medida em eficácia, isto é, apresentação de resultados. Num mundo competitivo, a diferença pode estar nos custos de produção, correcto, mas também na capacidade de inovação.

É aqui que entram os recursos humanos. Uma economia baseada em competitividade apenas pelos baixos salários, não responde à segunda exigência: capacidade de inovação. E hoje essa é uma variável fundamental.

Recursos humanos é a chave. 

 

Quando viajamos no tempo conseguimos imaginar os nossos antepassados a avaliar a qualidade de um trabalho e/ou de um produto final. E se estivermos bem atentos aos sinais e aos pormenores, conseguimos perceber como também nesses tempos a inovação era fundamental. Mesmo em papéis e funções muito simples, aparentemente muito simples, conseguimos quase visualizar alguém a sugerir a modificação de um canal de água, da exposição solar, da protecção dos ventos, de uma roldana, de uma liga metálica, e como isso fará toda a diferença.

Se estivermos mesmo atentos a esses vestígios, cidades sobre cidades, as soluções de cada época, ficamos verdadeiramente fascinados com o engenho humano.

 

Hoje precisamos desse engenho, dessa capacidade de inovação, e da avaliação de desempenho objectiva e imparcial, mas sobretudo actual, flexível e abrangente.

Actual = que corresponde aos desafios actuais de qualidade, medidos em eficácia-rapidez-inovação;

Flexível = aberta à capacidade de aprender e melhorar, o tempo certo para cada etapa;

Abrangente = que saiba medir várias dimensões.

 

Recentemente, vimos a insistência ao nível da obsessão com a avaliação de desempenho dos professores, que levou à maior arbitrariedade doentia: a divisão artificial entre funções, a pedagógica e a administrativa, para se valorizar a administrativa. Este foi, a meu ver, o grande desvio e deformação na avaliação desta actividade profissional. Mas também revelou esta incapacidade cultural de avaliar objectiva e imparcialmente o desempenho dos profissionais.

Uma das etapas dessa avaliação incluía a auto-avaliação apresentada em relatório. A auto-avaliação é, a meu ver, uma das peças-chave do processo, mas no contexto em que foram elaborados já podem imaginar como a maioria terá procurado ajustar-se às exigências arbitrárias e deformadas que conseguiram destacar dos objectivos.

 

Auto-avaliação = fundamental para o próprio se situar relativamente a um plano prévio de tarefas e responsabilidades, mas também às suas expectativas, às da equipa e às do cliente. É por isso que sempre considerei fundamental a elaboração de relatórios periódicos de actividade. Sempre os considerei como um processo natural e sempre fiquei surpreendida com a aversão generalizada a essa prática.

Pois bem, se todos os profissionais apresentassem relatórios de actividade periódicos, a qualidade do seu trabalho sofria uma melhoria significativa, em termos de orientação, organização e responsabilidade.

 

Recursos humanos é a chave hoje. A economia vive diariamente dessa variável. 

 

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Estamos numa fase dificílima, os desafios são enormes, precisamos de toda a inteligência e capacidade de inovação dos nossos recursos humanos, o tempo é curto, as oportunidades escassas, uma janelinha apenas. 

 

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A valorização do trabalho, condição essencial da economia hoje, baseada nos recursos humanos, na eficácia, rapidez e inovação, passa por identificar estes obstáculos culturais que vêm de tempos antigos, identificá-los sem receio, para os neutralizar. São um obstáculo cultural aos desafios actuais da economia e da confiança, a condição básica.

Mas também são um obstáculo cultural à interacção saudável das comunidades, a vida social.

  

 

 

Exemplo dramático de ausênca de avaliação de desempenho: o desastre do rápido na Galiza. Tudo aponta para essa falha fatal com resultados inconcebíveis: o traçado de uma via incompatível com a utilização de alta velocidade, e o perfil psicológico do maquinista incompatível com as funções e a responsabilidade da actividade. Eis como uma tragédia poderia ter sido evitada. É melhor prevenir do que remediar, e aqui não há remedeio possível.

 

 

 

publicado às 09:29

Os partidos e a saúde mental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 19.07.13

Para os cidadãos mais atentos, os partidos movimentam-se num meio muito competitivo e semelhante, na sua lógica do poder, ao da finança. Os grandes engolem os pequenos, ou se ganha ou se perde, faz-se bluff, mente-se, omite-se, trai-se, mudam-se as regras do jogo, vicia-se o jogo, etc. É um meio onde só alguns conseguem, por isso mesmo, sobreviver. É preciso grande capacidade de adaptação à hostilidade e à competição por vezes desleal e/ou conseguir o apoio dos mais influentes no seu grupo de referência e também dos deputados e representantes do poder local.

Um exemplo de liderança baseada em apoios no aparelho, digamos assim, parece-me ser o actual PM. Embora revele uma quase imunidade à hostilidade e à competição, o seu poder interno foi conseguido através de contactos pelo país durante 2 anos e durante a liderança de Manuela Ferreira Leite. Esta forma de consolidação do poder diz muito sobre o seu perfil. E diz muito também sobre o seu perfil como o principal obstáculo aos resultados favoráveis das actuais negociações PSD-CDS-PS.

 

Também o próprio PSD actual parece ser um obstáculo pela sua cultura de base, pois adoptou a austeridade como um programa maravilhoso e não percebe os danos que esse programa já causou ao país. Essa é a sua parte da responsabilidade no desastre financeiro e económico. Mas quem ouvisse ontem o PM a discursar perante os conselheiros do partido percebeu que há ali uma cegueira e uma surdez relativamente ao que os rodeia, aos outros partidos nas negociações e ao país.

Segundo André Freire, baseando-se em inquéritos à população para analisar a sua percepção dos diversos partidos, o PSD ultrapassou o CDS pela direita, adquirindo uma cultura neo-liberal e esquecendo toda a sua cultura social-democrata. Esta cultura de base é parte do obstáculo.

A arrogância, quando alinhada com a rigidez e a incapacidade de negociar, torna-se praticamente fechada e hermética a qualquer aproximação a outras posições diversas. E esse é, parece-me, o maior obstáculo.

Tivesse sido Paulo Rangel a ganhar as Directas há 2 anos e tal, e tudo teria sido bem diferente. Estou convencida disso. Mas não era isso que o PSD queria. Não digo que um homem só pudesse mudar a cultura de base do actual PSD. Digo é que teria negociado com o parceiro de coligação, não o teria reduzido no governo ao seu peso eleitoral, teria sido mais leal portanto com o parceiro minoritário no governo, teria ouvido as opiniões de todos e decidido no final. Nunca teria discursado a meio de negociações importantes, e nesse discurso avaliar positivamente toda a gestão do seu governo sem assumir que agravou a situação do país. Teria assumido a sua parte da responsabilidade da actual situação do país, por não ter sabido manter o PS desde o início nas negociações com a troika e por não ter sabido governar em coligação.

 

E é aqui que tenho de reconhecer que o CDS deve ter aguentado o inimaginável durante 2 anos. E é aqui que se percebe, mas isso já disse aqui, porque Portas queria sair deste abraço fatal e doentio, logo que Gaspar saiu. É que esta forma do PSD gerir o poder é doentia, não há outra forma de a classificar. Então o país está suspenso de um compromisso de salvação nacional e o PM mantém a data da reunião de conselheiros do PSD para manter a normalidade da vida do partido e depois faz um balanço positivo do programa da troika que aplicou aos seus conterrâneos e que os deixou na pobreza e com a economia de rastos, para nem sequer reduzir o défice nem a dívida, e dizer que correu tudo bem? E isto depois da carta do seu ministro das Finanças a assumir o falhanço? Há aqui uma alucinação grave.

Alucinação que se junta à maior insensibilidade política (que lê e fareja os sinais dos tempos) e inabilidade para lidar com os outros partidos, uma completa indelicadeza e desconsideração com o PS e o CDS. O PS tinha adiado a sua reunião para não sofrer pressões e/ou transpirar informação paralela que só afectaria o bom termo das negociações e o CDS tinha feito o mesmo há dias relativamente ao seu Congresso. Aliás, Seguro tem mantido uma postura correcta, ao não fazer quaisquer declarações que possam perturbar as negociações.

O actual PM e o actual PSD surgem-nos, portanto, como o maior obstáculo aos resultados que todos esperamos destas negociações. O país está entregue a quem revela uma atitude de total incapacidade para assumir a responsabilidade, além de incapacidade para negociar e ainda inabilidade política.

 

Quanto ao CDS, é o partido que se tem portado de forma mais profissional. Depois da decepção de o ver acatar quase tudo durante 2 anos, agora compreende-se melhor o que teve de aturar, aquele bloco maciço e hermético em que se transformou o PSD, e percebe-se porque Portas quis escapar logo depois de Gaspar. 

O CDS segurou as pontas desta situação e segurou Portas no governo. Portas aguentou o desafio, mesmo sabendo o que agora apenas podemos deduzir. E estamos a meio de negociações que o PSD está dificultar.

 

O PS, mesmo contrariado (ou querendo parecer contrariado) tem-se comportado dentro do clima favorável a uma negociação para um compromisso possível, isto é, não pode ceder a tudo, tem de atender às pressões externas e internas, não pode cometer deslizes (o único para já foi ir logo a reboque da moção de censura dos Verdes sem apresentar quaisquer reservas iniciais). Negociar com o PSD actual já não é pera doce, agora imaginem como será continuar a negociar depois das ameaças dramáticas do fundador do partido, e do discurso alucinado do PM ontem... em perfeito contraste com a discrição e sobriedade de Seguro e do adiamento da reunião do partido para não haver interferências nas negociações. As pessoas vão comparar estas duas atitudes.

 

Portanto, o PSD e o PM são, neste momento, o principal obstáculo a um possível compromisso de salvação nacional. 

 

O BE perdeu o pé completamente, perdeu uma oportunidade única de se redefinir e posicionar. Afinal a rebeldia que sempre revelaram é estrutural e não conjuntural, o que os transforma num partido adolescente. Depois da rebeldia, vem a construção da autonomia e a responsabilidade do adulto. Estar de fora é mais cómodo, caminhar pelas ruas de Lisboa é mais cómodo, apenas se têm de decorar uns slogans e transportar umas bandeirinhas. O resto são discursos mastigados e martelados na AR, que mais não são do que os mesmos slogans um pouco mais elaborados.

Tal como o PSD, revelam cegueira e surdez relativamente aos sinais dos tempos e uma grande rigidez mental. Enquanto no PSD essa rigidez tem a ver com a manutenção do poder local e da sua posição privilegiada nos corredores do poder central e europeu, é portanto uma questão de marcação territorial, no BE tem a ver com uma crise de identidade. Por isso os vemos tão agitados, tão nervosos.

 

O PCP é, a meu ver, o partido que menos entendo. A sua motivação parece-me centrar-se na manutenção das suas bases e da sua implantação territorial. Quer sobreviver aos novos tempos, apesar das contradições da história política. E tem sobrevivido por cá. Também prefere as caminhadas na rua, os slogans e as bandeiras, os piqueniques e a música. Na AR Gerónimo lembra-me outro Gerónimo, do lado de lá de fronteiras culturais inconciliáveis.

 

Os Verdes reduzem-se à prestação de Heloísa Apolónia na AR. Já irritava o anterior PM, agora trata-se de irritar o actual PM. Curiosamente, tanto o anterior como este gostam de quem lhes dê essa importância, isto é, vêem o poder como um forte impacto na vida de outros, o que os torna insensíveis e indiferentes às dores do mundo real. Portanto Heloísa acaba por lhes prestar vassalagem sem disso ter consciência.

 

E surge-me aqui o Padre António Vieira como a figura inspiradora destes tempos de negociações. Houve personagens assim no nosso filme colectivo.

 

 

 

Anexo 1: Megalomanias partidárias é o que se pode concluir destes discursos com sabor a propaganda eleitoral. Agora foi a vez de Seguro, com o mote Nesta semana... Apetece responder: Nesta semana assistimos a idas e vindas de políticos para e de reuniões, nesta semana ouvimos várias mensagens presidenciais de uma ilha distante perdida no mar, nesta semana o país ficou suspenso por um fio, um acordo sobre questões essenciais para o país. Já sabíamos que uns se tinham colado aos credores, outros procuravam conciliar os interesses dos credores com a economia e outros ainda se concentravam na economia, na procura interna e nas prestações sociais. O que não sabíamos é que não conseguiriam nenhuma aproximação em questões essenciais. O que revela a incapacidade dos partidos para enfrentar os desafios que temos pela frente. Quando o país precisa de transmitir para fora consistência e estabilidade, o que nos apresentam é monólogos auto-glorificadores. Ontem Passos, hoje Seguro. A mesma megalomania. A mesma inabilidade política. A mesma ausência de sentido de responsabilidade.

 

...

 

Anexo 2: Por mais que tentemos combinar as variáveis actuais até obtermos uma qualquer fórmula viável para enfrentar as exigências dos credores, da troika, e dos interesses vários que colidem com os do país e os seus cidadãos, não se vislumbra nada de promissor.

Os partidos mais votados e que se têm alternado na gestão política e financeira do país revelam hoje a maior inabilidade e insensibilidade políticas e são, eles próprios, factores de instabilidade. Podemos mesmo concluir que nenhum deles foi para este acordo-compromisso com a motivação de chegar a um qualquer entendimento. Se realmente quisessem aproximar posições, o PSD tinha adiado aquela reunião de conselheiros e o PM nunca teria feito aquele discurso naqueles termos provocadores. Se realmente quisessem aproximar posições, Seguro nunca teria andado com aquele ar angelical para ontem debitar aquela lista de exigências alucinadas que só revela que nunca deu qualquer hipótese de um qualquer entendimento. De onde se conclui que nem o PSD nem o PS acataram esta decisão presidencial. E será que o próprio Presidente não sabia de antemão que este acordo estava condenado à partida pela ausência de motivação destes dois partidos? Este é o nível de insanidade a que chegou a política nacional.

A estratégia governativa do PSD já tem sido, por si só, factor de instabilidade: esticar a corda ao máximo à espera da reacção do parceiro de coligação e da sociedade civil. Foi assim que conseguiu a reacção defensiva de Portas. E foi ainda essa a lógica também daquele discurso do PM na reunião de conselheiros: esticar a corda ao máximo até provocar uma reacção no PS. Objectivo conseguido: o discurso de ontem de Seguro é reactivo, intempestivo, emocional.

Esta estratégia do exercício do poder é perigosa e prejudicial, porque é contrária à estabilidade e à confiança necessárias na regeneração e recuperação da economia e da organização social. Há aqui um traço de arrogância e de arbitrariedade que só criam a confusão geral. Este dividir para reinar, numa altura de grande fragilidade económica e social, revela uma grande irresponsabilidade.

Quanto ao PS, se nem consegue assumir os erros da gestão do anterior governo e afirmar uma nova cultura da gestão do poder, diversa da megalomania do anterior governo, como nos pode propor um novo rumo? Não pode. Aliás, ontem revelou não ter qualquer rumo, pois a maior parte daquelas propostas dependem de uma nova Europa, de uma nova cultura europeia, de um novo equilíbrio de poderes institucionais ao mais alto nível.

É por isso que volto a colocar esta questão: o que é que o PS e o PSD nos andam a esconder?

 

Anexo 3: Afinal o CDS, contrariamente ao que tem sido divulgado, acabou por ser um factor de estabilidade política. Mesmo neste processo das negociações, manteve a postura adequada. Para o CDS este acordo-compromisso seria muito importante, na medida em que aliviava a pressão que neste momento sente, reforçava a posição negocial do governo perante a troika e seria benéfico para o país. Vá lá vá lá, afinal apostei no partido certo, isto é, naquele que, apesar de tudo, revela algum sentido de responsabilidade e alguma sanidade mental.

A saúde mental é um equilíbrio entre o pensamento e a acção, entre o que se gostaria de fazer e o que se pode fazer, entre a expressão da autonomia pessoal e a realidade exterior. É dar alguma autonomia a outros, não querer controlar tudo e todos. É respeitar os outros, as opiniões diversas, sem perder as estribeiras. É pensar no melhor para todos.

Talvez o CDS se tenha revelado como o partido que mais se aproximou deste equilíbrio, e nesse caso, a minha decepção com a sua participação nestes 2 anos de cortes a torto e a direito, de arbitrariedades várias, de injustiças, de omissão de informação importante, enfim, a minha decepção é pelo menos atenuada.

 

 

 

publicado às 07:40

O jornalismo televisivo, a finança, a política e a saúde mental

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 18.07.13

Quando uma situação é dramática, o pior que se pode fazer é dramatizar em cima do drama. Mas é isso que o jornalismo televisivo tem feito: dão-se as novidades minuto a minuto pegando nos pormenores mais insignificantes e transformando-os em notícia; os dados e números que se debitam são pouco consistentes e contraditórios; a esta falta de consistência é acrescentada uma interpretação também pouco credível; e tudo isto nos é transmitido em vozes estridentes e ofegantes como se desta informação dependesse a nossa própria vida.

Digamos que as notícias televisivas hoje são factor de ansiedade, angústia, preocupação (a mistura do stress), e de depressão. Digamos que em vez de contribuírem para acalmar e animar as pessoas já de si aflitas com a sua situação actual e com o futuro, agravam essa aflição. Dito de outro modo, em vez de promoverem a saúde mental, agravam a doença.

 

A juntar às notícias, temos ainda os comentários políticos, económicos, financeiros, sociológicos, etc. Também apresentados de forma dramática, na sua maioria. Se os levássemos a sério pensaríamos que o mundo vai acabar amanhã e que o país não tem salvação possível. E se considerássemos os debates e os frente-a-frente e os vice-versa como um reflexo do nosso colectivo, então ficaríamos convencidos que não há hipótese de um diálogo civilizado, de uma aproximação de ideias, de um encontro de posições.

A forma como se vive e respira a política, nas televisões e na Assembleia da República, revela uma questão mais profunda, a sua dimensão cultural, mas também tem a ver com a saúde mental.

 

A política reflecte hoje a profunda insanidade mental da vida financeira e da forma como engoliu a economia e a democracia. Nesse mundo tudo é vivido em alta ansiedade, em alta rotação, em alta velocidade. É um mundo onde os grandes comem os pequenos, mas sem lógica nenhuma aparente. Não há regras nem previsibilidade, mas exigem-se regras aos outros e que sejam previsíveis. É um mundo volátil e perigoso porque arrasta no seu turbilhão vidas humanas, expectativas de famílias, a dignidade do trabalho, quotidianos pacíficos, e a saúde mental de populações inteiras.

Para defendermos o direito de viver (e já não se trata dos tais direitos adquiridos que nos atiravam à cara precisamente aqueles que nunca viram as suas mordomias beliscadas), viver de forma digna e saudável (e trata-se aqui de direitos humanos mais básicos), temos de pôr um travão neste turbilhão que nos envolve, angustia, aprisiona, condiciona, adoece.

 

Comecemos então por promover a calma, o bom senso, o sentido de responsabilidade, nas televisões. As notícias devem ser apresentadas depois de validadas pela realidade. Debitar números soltos e casuais como se significassem mais do que isso, sem controlar as variáveis, sem apresentar os dados de forma comparativa e contextualizada, é batota e só confunde as pessoas. A isto chama-se qualidade da informação, informação fidedigna.

Quanto aos comentários disto e daquilo, deveriam pensar duas vezes antes de seleccionar os comentadores, convidando apenas os que apresentam a sua opinião baseada em conhecimentos válidos e pertinentes, e que a expressam de forma calma e não emotiva. Digamos que poderiam ser seleccionados também pela seu próprio estado em termos de saúde mental. Isto é muito importante.

Podem dizer-me que os comentadores que apresentam níveis elevados de ansiedade e uma postura emotiva, revelam uma motivação pessoal ou grupal, e têm uma agenda. Pode ser. Mas então porque têm os pobres mortais de os aturar?

Quanto a debates, esta quase ausência de respeito pelo adversário que se pode interromper sem qualquer cerimónia, tal como vemos acontecer na AR, é um péssimo exemplo de uma cultura pouco amiga da diversidade de opiniões que é a base da democracia.

 

Um dos paradoxos mais interessantes da cultura democrática, de uma democracia de qualidade, é que se tem de passar da discussão e do debate para a decisão e a acção. Este é o desafio. Ouvir as opiniões de todos os intervenientes e construir a partir daí convergências possíveis, compromissos possíveis. Estas convergências e compromissos garantem alguma consistência e estabilidade. Ora, consistência e estabilidade são condições essenciais para se trabalhar e criar, e são as bases de alguma sanidade mental também.

A nossa vida colectiva tem sido gerida da forma mais incerta possível, o que revela falta de sentido de responsabilidade. Leis são alteradas quando mudam os governos, trabalhos iniciados são interrompidos, a lógica alterada, as regras do jogo, os grandes propósitos, tudo muda como se nada estivesse a correr bem, e isto sem nada explicar, porque sim, agora é assim. Esta não é uma gestão responsável, só confunde, atrasa, retrai, afasta quem pode querer apostar no país. Mas tem sido essa a gestão política.

 

É por tudo isto que espero que os partidos que acreditam no país, nas pessoas concretas, no seu valor intrínseco, no seu direito de viver de forma digna, nas suas qualidades, nos seus recursos naturais e humanos, aprendam com estes solavancos e desafios, mudem a sua cultura de base, assumam a sua responsabilidade de gestão do colectivo.

É uma oportunidade, para eles e para todos nós, porque na ausência de poder legítimo embora imperfeito, surgirá um poder ilegítimo ainda que perfeito (para a lógica supra-nacional).

É também a oportunidade que lhes surgiu (talvez por acaso) de se redimir perante os cidadãos. Digo bem, redimir. O seu exemplo cívico tem deixado muito a desejar. Sabe-o quem ainda tem alguma consciência cívica.

Se encalharem agora por causa do tal corte exigido pelo FMI ou pela troika ou pelo BCE ou pela CE ou pelo próprio diabo (Gil Vicente diria melhor), isso será percebido como uma incapacidade de enfrentar os grandes desafios que nos esperam a nível de país entalado na Europa do euro. Não poderão merecer a confiança dos cidadãos, portanto. E ficamos realmente em maus lençóis. Porque haverá sempre um técnico, um tecnocrata, que dará conta do recado. Em nome da lógica financeira, a tal onde impera a maior insanidade mental.

 

 

 

publicado às 11:25

Os partidos viram-se esta semana conicionados naquilo que podemos considerar de "double bind" o que, em bom português, é mais ou menos preso por ter cão e por não ter. 

Das negociações para possíveis compromissos a médio longo prazo, dependia a manutenção do governo (o que importa ao PSD e ao CDS) e marcação de eleições antecipadas (o que interessa ao PS, ao PCP, ao BE e aos Verdes).

Não se conseguindo compromissos, sobretudo a 3, os partidos que assinaram o memorando e que têm governado o país, todos os cenários seriam péssimos para os partidos, para além de saírem penalizados eleitoralmente deste falhanço.  

Para sair deste "double bind", ferramenta de pressão do poder, o que em si mesmo é contraditório e adverso a um clima de negociações e de compromissos, o melhor é mesmo considerar este desafio na sua perspectiva benigna, aproveitando a janela estreita para sair do impasse. Mesmo que a tentação imediata seja a de não aceitar essa pressão.

Por isso acho que se saíram bem o PSD e o CDS, e de certo modo o PS (não fosse terem caído na esparrela da moção de censura dos Verdes).

Pior estiveram o PCP, o BE e os Verdes. Que mensagem pensam estar a transmitir aos cidadãos-eleitores? A resistência não se faz recusando negociar, a resistência faz-se precisamente negociando. Não têm dito que se deve renegociar a dívida?

 

Tem-se falado da imagem deste ou daquele político, deste ou daquele partido. A história daqui a uns anos poderá desenvolver esse tema. A fase que o país atravessa é que não pode ficar à espera de preocupações com a imagem a defender. O que está em jogo é tão importante pelo impacto na vida das pessoas que é preciso ultrapassar essas questões e avançar com plataformas e encontros, agora entre partidos, a seguir com os representantes das empresas e do trabalho, a sociedade civil.

Se o PCP, o BE e os Verdes querem ficar de fora e limitar-se aos debates na AR e a caminhadas na rua, tudo bem, é a sua estratégia. As pessoas que representam ou pensam ainda representar é que talvez merecessem uma outra postura, sem querer ser moralista. Começo a pensar que esta postura os vai prejudicar eleitoralmente.

 

Provavelmente os partidos que estão a negociar possíveis compromissos estejam também em formação intensiva e num processo de mudança. Essa é a nossa esperança. Que aprendam com esta experiência, mesmo que essa não fosse a expectativa presidencial. É sempre preferível surpreender o adversário, neste caso quem não acredita na sua capacidade de dar conta do recado, levar o país a bom porto nestes próximos anos. Os planos B e C não são nada saudáveis para a democracia já de si debilitada.

Se sair daqui um acordo-compromisso com o essencial, o governo mantém-se, a sua agenda poderá ser mais flexível e abrangente, o PS compromete-se a dar a apoio nas negociações com a troika, e a permitir dar consistência e viabilidade a orçamentos de estado. 

A 3 também se começam a definir posições, os cidadãos poderão avaliar a contribuição de cada uma. Será mais difícil viciar o jogo, digamos assim, porque se vigiarão constantemente: o PS não quererá ficar ligado a alterações das regras do jogo, e os governos têm tendência a pregar partidas aos cidadãos, mudando as leis de forma milimétrica, a engenharia do sistema. Isto também era frequente no anterior governo socialista. Deste modo, haverá mais vigilância de uns e de outros, poupando aos cidadãos muitas dores de cabeça e ataques cardíacos.

 

 

 

publicado às 02:28

As motivações dos que defendem eleições já

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 13.07.13

Seria interessante avançar com uma sondagem para sondar se a maioria dos cidadãos quer eleições já. A minha intuição diz-me que devem andar pelos 30% no máximo.

 

As eleições só iriam baralhar e dar de novo, porque o baralho é o mesmo. O baralho foi baralhado por nós há 2 anos e entretanto, que eu saiba, ainda não se renovou. O baralho continua a revelar cartas marcadas, outras repetidas, outras retiradas, e querem baralhá-lo de novo sem o renovar?

Mas se este baralho não se renovar, então ficaremos sujeitos a cartas muito mais duvidosas, porque não seremos nós, mal ou bem, a baralhá-las. Serão outros a fazê-lo por nós.

Assim sendo, temos de ajudar os políticos, esse baralho que é o que temos, a renovar a sua cultura de base e as regras do jogo, e a definir as prioridades para o país, a interagir entre si, a encontrar plataformas conjuntas e a assinar compromissos. Penso que é isto essencialmente que a sociedade civil espera dos políticos e dos partidos.

 

Eleições já apenas distraem as atenções do essencial: o baralho está viciado, trata-se de um verdadeiro impasse, os mesmos que nos trouxeram até aqui vão trocar de posições mas a cultura de base não muda, as regras do jogo são as deles e nisso eles entendem-se bem.

Eleições já servem de alívio momentâneo para o próprio sistema político e a sua fraca representatividade, e para os interesses que defendem, as excepções aos cortes, os privilégios, as mordomias. Digamos que os políticos e os partidos, sendo os intermediários entre o Estado, essa entidade cuja verdadeira dimensão ainda é desconhecida por nós, e os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros, funcionam como almofada, não apenas cedendo às suas pressões, o seu poder, mas também aguentando as sacudidelas dos cidadãos.

De tal modo os políticos já se sentem sacudidos, na rua e na AR, que a Presidente da AR esqueceu todos os filósofos que leu e os calhamaços que engoliu e perdeu a cabeça exigindo respeito, como se já sentisse a guilhotina no pescoço: carrasco não era aquele que desferia o golpe fatal?

 

Podem dizer os que defendem eleições já que a representatividade e legitimidade do governo se resolve com eleições antecipadas. E assim o problema fica resolvido. Antes pelo contrário.

A representatividade e legitimidade resolve-se com uma mudança cultural profunda, assumir a responsabilidade mesmo que isso implique alguns custos imediatos em termos de mordomias e privilégios, e exija coragem para não ceder a pressões.

A representatividade e legitimidade resolve-se com uma mudança da lei eleitoral, de forma a aproximar eleitos-eleitores.

A representatividade e legitimidade resolve-se com a transparência, com prestar contas, apresentar relatórios, toda a informação relevante disponível a consulta pelos cidadãos.

E já agora, para merecerem a confiança dos eleitores, não poderão continuar a rasgar acordos e compromissos com os cidadãos e a aceitar as exigências e pressões dos credores, ou dos que exercem pressões.

Até isso se verificar, fica tudo na mesma.

 

As motivações dos que defendem eleições já variam conforme a sua posição na pirâmide aguda e esdrúxula em que nos organizaram, mas têm ganhos directos ou indirectos. Sem querer ser injusta, defendem a sua posição e não o colectivo, os cidadãos, as pessoas concretas. Por isso os seus argumentos fraquejam e repetem-se numa quase histeria dramática. Quando os argumentos são fortes, não precisam de carga emocional na sua apresentação, valem por si.

O único comentador que vi defender eleições já com argumentos inteligentes foi Pedro Lains, que já aqui referi, mas ainda assim discordei, por ser demasiado arriscado. Esticar demasiado a corda pode acabar por partir a corda. Mesmo que a corda venha a partir daqui a uns tempos, que seja numa altura em que não faça cair tanta gente e tão fragilizada.

 

Pelo que boas notícias seriam o melhor que poderia começar a acontecer aos cidadãos. Não me refiro à publicidade enganadora dos números do desemprego a diminuir (estamos no Verão, Santo Deus!, é o trabaho sazonal!) ou o ligeiro aumento das exportações. Refiro-me a boas notícias do género: os 3 partidos reuniram e a seguir vão reunir a 6, os 6 vão ainda reunir com os representantes patronais e sindicais, e vão envolver a sociedade civil nas suas diversas plataformas e especificidades, num trabalho conjunto e articulado. Parece filme de ficção científica, não parece? Mas essa é a cultura do séc. XXI.

A agenda de trabalhos:

1. Estado - a sua dimensão;

2. Estado - as suas funções prioritárias;

3. Estado - o que reduzir sem comprometer 2.;

4. Estado - como sustentá-lo a partir daqui?

5. A economia - como regenerar todo o tecido agrícola, industrial, de serviços?

6. Que modelo de país querem os cidadãos e o que estão dispostos a fazer para o merecer?

...

 

O poder político é muitas vezes visto como uma arma de destruição, aquele que pode afectar a vida de muitos outros, mas pode passar a ser encarado na perspectiva criadora. O poder de criar é muito mais difícil do que o de destruir, além de que é o único que nos enche a alma, por vezes até nem se vê de imediato porque acontece na maior simplicidade.

 

O que se passou na nossa vida colectiva, especialmente desde 2004 com a saída de Barroso, foi mau demais. Podem agora os que defendem eleições já tentar fazer comparações com a decisão de Sampaio de dissolver a AR, que não é argumento válido. Sampaio fez tudo de forma ambígua e perversa: primeiro, decidiu não convocar eleições antecipadas mesmo depois  de ter chamado a Belém os conselheiros de Estado; segundo, deixou Santana governar sem a tal legitimidade durante alguns meses para a seguir lhe tirar o tapete.

A situação actual é diversa, o PM é o mesmo e decidiu ficar, o segundo partido da coligação também se mantém, a troika quer ver se passamos o exame do bom aluno, o governo pode aproveitar o susto que a Europa apanhou para alterar o programa de forma a torná-lo viável, e se for acompanhado por um compromisso a 3, se não a 6, tanto mais forte e consistente será a sua posição.

 

 

 

 

publicado às 11:14

O Presidente decidiu não arriscar mais atribulações no país. O acordo apresentado pelos partidos da coligação no governo não lhe garantia essa estabilidade. O país não podia ficar cativo de um governo que não lhe dava essa garantia. A sua decisão envolve os 3 partidos que assinaram o memorando, um compromisso de salvação nacional, e fixou-lhes um prazo (assim como à troika) para receberem o seu prémio (poderem marcar as eleições antecipadas). Concordo.

Aqui o Presidente agarra o PS pelo braço e lembra-lhe que não pode fugir à sua parte da responsabilidade pela situação do país. O PS, que tinha apresentado há dois meses um novo rumo, que se iria abrir à colaboração com todas as forças políticas, representantes da concertação social, movimentos cívicos, etc., à primeira sacudidela pede eleições, antes mesmo de analisar as consequências dessa opção na fase de avaliações da troika.

 

Mas a análise do Presidente também lembra aos partidos em geral que a sua postura será avaliada pelos cidadãos. De qualquer modo, a reacção destes partidos foi a mais célere: o PCP, o partido mais previsível, pede eleições e mudar de política; o BE, o partido mais aventureiro, também pede eleições, talvez porque aparentemente não tenha nada a perder, afinal baixou drasticamente nas últimas eleições e agora teria mais votos; os Verdes mantêm o mesmo registo de sempre e pedem eleições.

 

Agora vejamos:

- o Presidente está a tentar segurar as pontas soltas da inabilidade do PM ao não comprometer o PS, logo desde o início, que aproveitou para se descolar da assinatura do memorando, independentemente das alterações posteriores, e de não ter sabido gerir o equilíbrio de forças na coligação. O que vimos nestes 2 anos foi um PM a escudar-se por trás de um técnico que atraiu a revolta generalizada;

- o Presidente sabe que as eleições apenas mudarão a composição destes 3 partidos na fórmula governativa, apenas muda a sua relação de forças. Se não for PSD-CDS, será PS-CDS. Nem sequer se prevê a possibilidade de um entendimento dos 3 juntos! O que revela que os partidos não aprenderam nada, não evoluíram, não se adaptaram aos desafios, mas sobretudo não perceberam nada! Dizem que governar em coligação não é uma tradição portuguesa (!) Esta é essa oportunidade. Nem precisam de andar de braço dado, é só encontrar uma forma de encontrar um compromisso nas questões fundamentais;

- o Presidente sabe que cabe à Assembleia da República resolver a fórmula governativa. É para aí que está a dirigir os holofotes e é aí que está a colocar a grande responsabilidade. É tudo o que os partidos actuais e a sua cultura de base não querem! Responsabilidade de levar o país até um prazo que nos interessa fixar, a saída da troika, o final da intervenção externa, é muito mais difícil do que discursar na AR. Mesmo que se coloquem na posição irredutível de não aceitar a troika nem as suas exigências, têm de explicar aos cidadãos as consequências dessa opção;

- o Presidente sabe que tem de falar para a Europa, o seu discurso tentou tranquilizar os credores ao fixar um prazo, até à saída da troika evitarei as incertezas políticas mas espero que contribuam com a vossa parte e que facilitem a vida ao país, afinal o governo foi o bom aluno e os cidadãos portugueses já colaboraram com os seus sacrifícios. Embora todos saibam, cidadãos incluídos, que esse prazo apenas corresponde ao fim das visitas periódicas dos 3 técnicos estrangeiros, pois continuaremos a precisar das rodinhas de apoio na bicicleta até nos equilibrarmos de novo, esse prazo é fundamental, não apenas como mensagem à troika mas também como marco psicológico para o país.

 

 

Ontem ficou exposta a crise do sistema partidário que revela uma crise cultural, de valores, de princípios, quando vimos o seu embaraço, a sua hesitação, em reagir à decisão do Presidente. Os danos foram geridos atabalhoadamente pelos comentadores de serviço nas televisões. Gostaria de saber se a maioria dos comentadores domina bem o português, porque pela diversiade de interpretações do discurso do Presidente, ou revelam necessidade urgente de revisão da interpretação de textos e da gramática ou então desconfio que se trata de pura manipulação informativa.

Os partidos que ficaram mais bloqueados: PS, em primeiro lugar, PSD, em segundo. Muito mais profissional foi a resposta do CDS, apesar de tudo. Acolheram a decisão do Presidente que compreendem.

 

Para já, os cidadãos perceberam que:

- os partidos são intermediários de interesses e não representam o país entendido como o colectivo, os cidadãos. O Estado, que deveria ser gerido com todo o respeito, é por eles percebido como a gestão do poder e de influência. O PS e o PSD não prestam contas aos cidadãos e, pelo que se percebe até neste episódio recente das divergências do ministro das Finanças do anterior governo com a actual ministra das Finanças, ninguém diz a verdade em questões como financiamento bancário através de mecanismos de alto risco;

- os cidadãos sabem que, no fundo, as eleições não vão mudar este estado de coisas, a cultura dos partidos, os interesses que defendem, a sua cada vez menor legitimidade pela perda de confiança dos eleitores. Sabem que o PS não esclareceu sequer como levou o país à falência, mesmo que venha o ex-PM falar semanalmente à televisão e o PSD não esclarece os cidadãos sobre a real dimensão do Estado e porque decidiu cortar no mais fraco, nos cidadãos;

- não se sentiu nenhuma demonstração de entusiasmo especial pelos cidadãos quanto a eleições antecipadas, mas os partidos não revelaram sensibilidade para ler esses sinais dos tempos;

- vir falar de democracia quando os cidadãos não têm acesso à informação que conta é risível. Na ausência de transparência e de justiça,  e com o aumento das desigualdades sociais, onde é que está a democracia?

 

A minha previsão:

- Seguro, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PS, terá de revelar sentido de responsabilidade e pegar novamente no dossier das propostas, afinal o Presidente já lhe deu uma motivação: se os 3 partidos que assinaram o memorando levarem o país a bom porto até ao prazo que nos importa fixar, a saída da troika e fim do programa de intervenção externa, em Junho de 2014, poderão reunir e definir o calendário das eleições antecipadas;

- Passos, se quiser sobreviver aos adversários mais próximos à liderança do PSD (e só espero que não nos surja Rui Rio como já ouvi algures), altera a sua postura de entrincheirado a defender a sua posição numa batalha alucinada, arranja um treinador em negociação, e faz de anfitrião dos outros 2;

- Portas não terá outro remédio senão alinhar no compromisso, afinal dizem que é um bom negociador. Além disso, a 3 a pressão sobre o CDS é menor, além de que cabe aos 2 maiores partidos a partilha da maior responsabilidade pelo desastre colectivo.

 

Dizem-nos que o Presidente agravou a crise (!) porque ninguém quer assumir a sua responsabilidade e querem continuar a viver no melhor de dois mundos: imunes à profunda mudança cultural que se avizinha, imunes à contenção de despesa, imunes à responsabilização, imunes a prestar contas aos cidadãos.

O PSD justificou o aumento de impostos e depois os cortes drásticos com a mensagem moralista vivemos acima das nossas possibilidades. Em certos momentos até o CDS se colou a este moralismo preconceituoso e injusto. Mas ontem ouvi, a um comentador mais experiente da vida global num debate na RTPN, que a maior responsabilidade pelo que nos aconteceu na Europa se deve ao BCE. Concordo. E também disse: só não vê quem não quer ver.

 

 

 

 

publicado às 13:15

As indicações no Relatório eram claras, tratava-se de um corte permanente de despesa do Estado de 4 mil milhões de euros. O governo chamou-lhe Reforma do Estado (!) mas se o fosse, não se teria desenrolado a partir de uma ordem dada aos serviços, pelo ministro das Finanças, para elaborar listas de Requalificáveis, isto é, dispensáveis. Chamaram-lhe comum acordo (!) mas na verdade era apenas uma preparação para o despedimento.

Mas o Relatório diz mais: ou medidas alternativas (cortes) desde que envolvendo esse montante (e igualmente permanentes, subentende-se).

 

Pois bem, vamos a isso. O que se deve preservar a todo o custo? A prestação e a qualidade dos serviços públicos na Saúde, na Educação, assegurar as Reformas contributivas e as prestações sociais. Aqui é que começam as nossas divergências, porque todas as tesouras parecem apontar para estas áreas prioritárias.

 

O que é que ainda se pode cortar nestas áreas prioritárias sem comprometer a prestação dos serviços, isto é, assegurar o seu acesso universal, e a sua qualidade?

Na Saúde, penalizar fortemente a fraude: falsificação de receitas, prescrição de certos medicamentos em troca de dinheiro, fraude fiscal, etc. Profissionais de Saúde apanhados em actividades fraudulentas deveriam perder imediatamente a licença e o seu lugar no SNS de forma permanente. Passariam a constar da lista de Requalificáveis.

Na Educação, todos os colégios que recebem financiamento estatal passam a ser financiados pelo privado. Só aqui poupam-se milhões (e muitos mais do que se pensa), assim como passam de novo para a Escola Pública as turmas que indevidamente lhes foram subtraídas em negócios nada transparentes. Se querem liberdade de escolha público ou privado, sempre que o público tiver esse serviço disponível e optarem ainda assim pelo privado, devem pagá-lo.

As Reformas contributivas e as prestações sociais devem ser preservadas intactas a todo o custo. Já as Reformas não contributivas devem ter um tecto máximo e não devem, de forma alguma, ser acumuláveis. Decidam-se por uma delas e ponto final.

 

As empresas públicas e as empresas municipais devem articular entre si de forma a optimizar serviços. Algumas deverão ser extintas. Por mim, metade das câmaras municipais deveriam ser extintas devendo manter-se as Juntas de Freguesia muito mais estruturantes em termos de coesão territorial. Só aqui já temos cortes de muitos milhões, se não já mil milhões de euros, de poupança permanente. Autarcas envolvidos em negócios pouco claros deveriam ser impedidos de voltar a candidatar-se. O limite de mandatos deve ser respeitado.

Assembleia da República: menos deputados e mais próximos dos eleitores em termos de representatividade. Rever as incompatibilidades inscritas na deontologa profissional. Transparência nas agendas de cada um, que mais parecem lóbis dentro do parlamento. Isto ainda não é os States.

Fundações: ainda não se viu quase nada.

Institutos: extinguir.

Consultorias: recorrer à prata da casa. Daí a importância de atrair bons técnicos que deverão ser bem pagos, embora dentro do justo e razoável.

Assessores: reduzir.

...

 

Manter no público sectores rentáveis e estruturantes, como os CTT. Que ideia é essa de vender aos privados uma empresa antiquíssima, que faz parte do património cultural do país, além do seu papel fundamental na coesão territorial e na confiança que conquistou junto dos seus clientes?

Nos sectores ligados a recursos naturais, vitais e fundamentais, como a energia e a água, o Estado deve ter uma intervenção supervisora e/ou reguladora.

PPPs, swaps, e outros mecanismos que prejudicam o Estado, devem ser disciplinados de forma permanente.

O papel do Banco de Portugal deve ser muito mais activo na supervisão bancária e no controle de taxas ilegítimas aos clientes. E estar muito atento a possíveis irregularidades e fraudes que acabariam a ser de novo pagas pelos contribuintes. A CGD, em vez de privatizar serviços importantes, deveria manter-se como banco público e referência de uma actividade bancária exemplar, com mecanismos e estratégias amigos da economia e do país.

...

 

Deixar a economia respirar, sair de cima da economia, impostos, taxas, burocracia, justiça pouco clara, é prioritário.

Por falar em justiça, como é branda e ineficaz nas grandes fraudes e rápida e sumária nos pequenos casos! Veja-se o exemplo do cidadão de Elvas que foi julgado sumariamente tendo-lhe sido aplicada multa de 1.300 euros! Ou o caso dos jovens comunistas no Porto que foram levados à esquadra e detidos por pintar uma parede! Mas eis que os autores de grandes burlas se passeiam à vontade como se nada fosse (com duas ou três excepções).

Criminalizar fortemente a publicidade enganosa e fraudulenta, a exploração de recursos humanos. Fechar-lhes imediatamente a chafarica e aplicar-lhes uma multa avultada. Fiscalizar actividades como trabalho temporário, outra forma de exploração de recursos humanos, não tão agressiva como a anterior, mas ainda assim a necessitar de ser acompanhada. Falsa formação profissional, falsos estágios, tudo isso vai continuar a acontecer. É por isso que sempre me agradaram mais as medidas para deixar a economia respirar, ou apoios ao início de uma actividade por conta própria, do que interferir através de programas de estágio ou de incentivos ao emprego. 

 

O Estado pode ter um papel muito mais activo na promoção de comportamentos amigos dos bens colectivos. Pode dar o exemplo, pagar a tempo, premiar os cumpridores, dar incentivos fiscais, etc. Se as empresas que pagam os seus impostos no país e respeitam os seus recursos humanos tivessem uma etiqueta nos seus produtos a assinalar essa proeza, a par dos certificados disto e daquilo, seria uma boa publicidade. Não desvalorizar a importância do papel dos consumidores na mudança de atitude das empresas.

A grande evasão fiscal também envolve montantes permanentes de mil milhões! A Europa deveria controlar os paraísos fiscais. Tudo isto contribuiria para financiar o Estado.

...

 

Argumento mais popularizado nas televisões pelos interesses dos privilégios: mas cortar essa fatia de cima (vencimentos milionários, reformas milionárias e acumuláveis, indemnizações milionárias, etc.), não resolve o problema. Ora muito bem, se todas as fatias a cortar dissessem o mesmo, não haveria onde cortar, pois não? Por pouco que seja (e desconfio que nesta fatia de cima não será assim tão pouco), ajuda a resolver e serve de exemplo de cima para baixo.

 

 

Para início da elaboração da lista de cortes permanentes, acho que já temos aqui algum material para analisar. Claro que há muitas áreas por referir, não conhecemos o universo de organismos, corpúsculos, contratos, acordos, benefícios,  informação privilegiada, falsos concursos, toda essa teia que faz o dia a dia desse colectivo capturado e pago pelo contribuinte actual e pelos seus filhos e netos.

O universo Estado é muito mais amplo do que o que nos querem fazer crer. Desconhecemos a sua real dimensão. Portanto, há que saber primeiro o que entra nesse universo, antes de começar a cortar nas áreas prioritárias.

 

 

publicado às 16:09

É interessante reflectir na reacção recente dos mercados, as descidas na bolsa, a agitação da banca, e na palavra-chave para estas entidades: estabilidade. É como uma palavra mágica, tudo menos a instabilidade, isto é, a imprevisibilidade, tudo o que não podem controlar.

Reparem, estas entidades são elas mesmas factores de instabilidade, foram as suas jogadas arriscadas e desreguladas que arrastaram economias atrás, pondo contribuintes a pagar essas irregularidades. Mas aí tudo bem, estão sempre protegidas e acauteladas: pelos contribuintes e não é no fim da linha, pelo que percebi, é logo a meio da linha. No fim da linha devem ser os accionistas porque antes deles devem vir os depositantes, e não quero ser injusta.

 

O poder preocupa-se visceralmente com o controle, a previsibilidade, tanto de acontecimentos como de comportamentos, ainda que possa ser imprevisível, e é imprevisível. Para o poder, há apenas duas hipóteses: ganhar ou perder. Por isso fala em sucesso=vencer o adversário. 

A confiança baseia-se na definição clara de valores e princípios, de prioridades, para passar à aproximação do acordo, e do compromisso. Implica a verdade, jogo limpo. Não se preocupa em controlar mas em conhecer a outra perspectiva. Não há previsibilidade, há expectativa de encontro de posições, há respeito mútuo.

 

Na política, tal como na finança, tudo se desenrola em termos de poder e não de confiança. São mundos muito competitivos, agressivamente competitivos

Vejamos um exemplo: o novo rumo do PS, que até funcionou bem como campanha publicitária política, e nisso os socialistas são profissionais, não se revelou suficiente para afirmar Seguro como um próximo PM pelo PS. Nem algumas das suas entrevistas bem sucedidas em que levou um dossier de propostas apresentadas pelo PS, e algumas até aproveitadas pelo governo, se revelaram suficientes. Na hora da agitação, em que se esperaria uma palavra de prudência, lança-se em frente qual cavaleiro andante: eleições, eleições, o governo está morto. Alguém chamou a isto fugir para a frente. Está bem visto. Seguro parece estar a falar para os dois cavaleiros que o seguem lá atrás e não tanto para os adversários, sem reparar que poucos o seguem. Se quer ser coerente com o novo rumo, em que lançou uma nova postura da interacção com tudo e com todos, e vimo-lo reunir a seguir com todos os partidos e todas as organizações representativas da economia e do trabalho, a sua postura tem de ser outra: colaborar, pegar de novo nas propostas do seu dossier. Terá de ser mais esperto do que os seus adversários mais próximos em vez de se pôr a correr à sua frente. 

 

Os cidadãos merecem a verdade, jogo limpo. É esse o grande desafio dos políticos, essa nova cultura da confiança, do respeito mútuo, sem cair no populismo, na propaganda. E sem se deixar apanhar nas armadilhas dos seus adversários mais próximos. Isto exige muita habilidade.

Alguém disse recentemente que ser político hoje é mais difícil, pela complexidade do meio em que se movimenta. Concordo. Tudo o que diz e faz é interpretado até à sílaba. Vejamos a interpretação de uma frase do PR pela maioria dos jornalistas e comentadores: Seja que governo for, o programa é para cumprir. Interpretação da maioria: o PR já põe a hipótese de ser um outro governo. A mim pareceu-me: é indiferente este ou outro governo, uma vez que o programa é o mesmo.

 

Quando está tudo agitado e receoso do futuro, é bom ouvir alguém falar com a calma dos que estão a estudar a situação e a observar o comportamento dos mercados, dos credores, da Europa, e do FMI. Foi essa perspectiva dissonante que vi em Pedro Lains num debate televisivo ontem na RTPN. O jornalista-moderador é que não conseguiu acalmar João César das Neves que reagiu intempestivamente a uma postura diversa da sua. Helena Garrido e o jornalista do Diário Económico, embora não partilhassem essa perspectiva, souberam ouvi-la pelo menos. Segundo Pedro Lains, deveríamos pensar e analisar a reacção dos mercados e dos credores esta semana: apanharam um valente susto (a tal instabilidade, a imprevisibilidade, o que não conseguem controlar). O economista, que estudou História da Economia, entende que a nossa atitude de devedores não pode ser a de nos colarmos às exigências dos credores, como fez o PM e o ministro das Finanças, mas de negociar a nossa situação de estado membro europeu de pleno direito. Até aqui concordo: este susto foi útil na medida em que os leva a considerar a nossa situação, até que ponto nos estão a impedir de pagar a dívida (a chantagem financeira) e até que ponto é revelado o seu falhanço:  até o bom aluno da austeridade chumbou no exame. Só não partilho a sua ideia de que poderíamos esticar a corda politicamente e dar tempo-espaço a eleições. Quando os riscos implicam a vida de muitos cidadãos aflitos e impacientes, a prudência é preferível ao aventureirismo. Além disso, o pior que se podia fazer é apresentar-lhes em Setembro o folclore das campanhas partidárias.  

 

 

 

publicado às 17:18

É que por enquanto este poder supra-nacional da CE, do BE e do FMI apoia-se na legitimidade financeira, no crédito financeiro e no suporte ao acesso aos mercados. Mas é por aí que se quer legitimar o poder total: político, fiscal, económico, o trabalho, a organização social, e sabe-se lá mais o quê.

 

Há qualquer coisa de muito perverso e deturpado que se está a desenhar actualmente na Europa e que se quer impor como inevitável aos cidadãos europeus. Esta chamada crise financeira caracteriza-se afinal por uma crise profunda de valores humanos, de consciência e de sentido de responsabilidade, perfeitamente visível nos discursos contraditórios das lideranças europeias e das organizações que supostamente deveriam ajudar países a recuperar mas que apenas destroem economias e democracias.

O federalismo que nos querem impor assemelha-se a uma réplica dos States na sua organização centralizada e dominada por um banco central.

Se olharmos com atenção para este visualizador sobre as desigualdades de rendimentos nos States, onde cabe ali o valor do trabalho? Não cabe. O trabalho é simplesmente desvalorizado e nem sequer considerado.

 

Já imaginaram o poder que isto envolveria sobre os estados membros? Quem está sob resgate da troika já sentiu esses dedos frios no pescoço: empresas a fechar, pessoas despejadas das suas casas, desemprego a disparar, jovens sem qualquer oportunidade de futuro, velhos sem perspectivas de manter as despesas com remédios, a classe média empurrada para a pobreza, a pobreza a generalizar-se.

 

Às vezes isto lembra-me War Inc. mas ainda não é esse caos de War Inc. que vemos a desenhar-se na Europa. É uma nova ordem que lembra Orwell na concentração do poder numa entidade inacessível mas que se simula próxima, na organização do poder em grandes potências-continentes, e nas principais características culturais: informação-propaganda, vigilância permanente, trabalho desvalorizado, tudo é produto de consumo. O caos de War Inc. ainda se pensa estar circunscrito a algumas partes do globo suficientemente distantes para não os incomodar: promovem-se os conflitos para adquirirem armamento e andarem entretetidos. Geralmente as interferências antecipam apropriação de recursos. Ou então circunscrito a determinadas camadas da população permeáveis ao consumo da informação de massas (propaganda) e ao entretenimento de massas (cultura do lixo).


Onde é que esta nova ordem=organização do poder encaixa neste séc. XXI da sociedade da informação?

Não encaixa enquanto houver a possibilidade de acesso à informação, à troca de ideias e à mobilização social.

Mas a informação que conta é vedada aos cidadãos. Os dados são-lhe apresentados num determinado contexto, com uma interpretação aceitável.

Assim, o que vemos actualmente acontecer é a divulgação ilegal de informação (!) através do acesso ilegal a serviços secretos e/ou da fuga de informação, ilegal portanto (!!) por funcionários desses serviços que a obtiveram ilegalmente (!!!). Seria preferível que a informação que diz respeito aos cidadãos, às suas vidas, à sua segurança, estivesse acessível pura e simplesmente.

O que é que esta informação obtida ilegalmente e divulgada ilegalmente revela? Simples cidadãos podem ser vigiados. Não lembra Orwell? 

O mais perverso é que dados de simples cidadãos também podem ser traficados e utilizados indevidamente por empresas que se movimentam numa cultura dominante em que tudo é um produto de consumo. E o mais perigoso é os seus dados poderem ser manipulados. Ninguém estaria em segurança em parte alguma.

Aqui no anexo 3 referi-me a este assunto de forma um pouco descontraída: quem não tem nada a esconder nada teria a temer. Mas não é bem assim. Aceitar como uma actividade normal e legítima, em nome da segurança por exemplo, a possibilidade de vigilância das mensagens electrónicas ou comunicações telefónicas, é dar a esses serviços um poder enorme, é praticamente pôr as nossas vidas nas mãos de organizações desconhecidas.

Isto, aliás, não é muito diferente da aceitação de um poder supra-nacional que se quer impor aos cidadãos, assim como de uma cultura dominante que não os considera nem respeita.

 

 

 

publicado às 14:37

Deste acordo entre PSD e CDS que foi decidico ao mais alto nível e condicionado por exigências claras, e de novo temos de olhar para os bastidores do teatro político, começa a emergir um verdadeiro governo de salvação nacional.

 

O PS, que deveria agora estar envolvido na fórmula encontrada, pois participou no descalabro financeiro e ainda não esclareceu devidamente os cidadãos, revela agora total inabilidade política ao vir para a praça pedir eleições em vez de aguardar pela decisão do Presidente. Por um lado, esta revelação da sua incapacidade para assumir tão grande responsabilidade acaba por ser um dado útil, pois evitam-se mais ilusões de um novo rumo. Além disso, quem não está traumatizado com os rostos do PS que acompanharam o anterior PM? Voltaram a passear-se até ao Rato a pedir sangue. E além disso ainda, alguém ficou convencido com a entrevista de Teixeira dos Santos?

 

O PCP e o BE aguentaram temperaturas impróprias para a saúde para se passear nas ruas de Lisboa e segurar bandeiras coloridas a pedir a queda do governo, antes mesmo de falar com o Presidente.

 

 

Salvação nacional, porquê? Porque a nossa situação actual é mais grave do que o PS e o PSD nos quiseram revelar. Aliás, os cidadãos deveriam exigir-lhes a informação que conta para as suas vidas e as dos seus filhos e netos. Também ajudaria à credibilidade destes dois partidos que a sua gestão danosa e/ou fraudulenta fosse devidamente responsabilizada.

Salvação nacional também, porque a troika é implacável, Barroso é implacável, a agenda europeia actual é implacável, a Alemanha ainda não se definiu, a França está assustada, a Espanha está em pânico, etc. etc. etc.

Salvação nacional ainda, porque tanto o PSD como o CDS sacrificaram os seus líderes que terão de desempenhar um papel, definido em Bruxelas e no FMI, no filme de terror A Reforma do Estado, cabendo a Portas a difícil tarefa de negociar com a troika e com os parceiros sociais, num equilíbrio permanente entre a economia e os cortes, a prestação de serviços públicos e a pressão dos privados, a sobrevivência das pessoas concretas e os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros.

E finalmente de salvação nacional pois também o CDS é sacrificado ao PSD, ao ser co-responsabilizado na gestão política de Passos e da gestão financeira de Gaspar que pioraram gravemente a situação do país. A garantia da estabilidade desta relação é dada pela lista conjunta às eleições europeias.

 

Surpreendentemente, não se vislumbra fórmula melhor. Aliás, como TPC lançaria hoje este desafio de encontrar fórmula melhor.

 

Mesmo que a tarefa seja mais própria de um super-herói e Portas tenha disso consciência, talvez seja o único que reúne as qualidades necessárias que não encontraríamos facilmente noutro político actual, não apenas as intrínsecas (negociação, organização, visão de grande plano, conhecimento das contingências culturais e históricas), mas também as conjunturais (foi forçado por exigências de contrato a protagonizar o papel de protagonista no filme A Reforma do Estado produzido pela troika).

 

 

 

publicado às 11:44

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